Vinicius de Moraes foi muito mais que nosso "Poetinha", apelido carinhosamente atribuído a ele. Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes foi compositor, intérprete, escritor, jornalista, advogado, diplomata. Uma pessoa que viveu a vida ao máximo, passou uma metade dela viajando, a outra amando (teve nove casamentos). Nascido no dia 19 de outubro de 1913, era um apaixonado pelo mundo. Daí suas escolhas profissionais, em todos os sentidos. Obcecado pelo dom de viver, Vinicius sempre procurou fazer aquilo que lhe proporcionasse prazer.
A carreira diplomática começou em 1943, trabalhou como vice-cônsul, entre outros cargos.
Tais atividades só foram interrompidas em 1968, quando foi punido pelo Ato Institucional n. º 5 com aposentadoria compulsória do Itamaraty, depois de 26 anos de (bons) serviços prestados.
O jornalismo e a crítica de cinema foram outras ocupações profissionais.Trabalhou nos jornais Última Hora, A Manhã, Suplemento Literário, O Jornal e na revista Clima, entre outros lugares. Em 1936, ele foi nomeado representante do MEC na censura cinematográfica, onde, nas sessões, apenas dormia e nada censurava. Uma atuação mais animada e engajada viria em 1947, com a fundação da revista Filme, da qual ele participou e manteve contato com diretores famosos como Orson Welles e Walt Disney.
Viajante que era percorreu a Europa em 1952 com o objetivo de estudar a organização dos festivais de Cannes, Berlim, Locarno e Veneza. Em 1966, foi membro do Júri Internacional de Cannes.
Vinicius era admirado não apenas por sua obra. Antes de poeta, ele foi uma pessoa querida por todos seus companheiros, parceiros e amigos. Um carioca da gema,como podemos definir pelo seu amor à cidade, que pode ser comprovado através dos sonetos e músicas. Nosso poetinha faleceu no Rio de Janeiro em 9 de Julho de 1980, mas seu legado ainda está presente nos corações dos apaixonados. Apaixonados pela vida, acima de tudo.
Vinicius e as Mulheres

"São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher..."
Em todos os casamentos desfeitos, a mesma cena se repetia.Ele ia embora praticamente com a roupa do corpo, levando consigo, no entanto, a certeza de que seu coração sempre estaria aberto para paixões novas e avassaladoras.
As mulheres - de vedetes a intelectuais - sempre foram fonte de inspiração máxima da obra de Vinicius de Moraes.
Ele vivia alegre e com intensidade assustadora. Como grande artista que foi, Vinicius fez com que toda a emoção e delicadeza de cada um de seus encontros e desencontros fizessem parte de sua magnífica obra.
Em entrevista concedida à Clarice Lispector, Vinicius de Moraes fala sobre o amor e sobre as mulheres:
C.L:- Você acaba um caso porque encontra outra mulher ou porque se cansa da primeira?
V.M. - Na minha vida tem sido como se uma mulher me depositasse nos braços de outra. Isso talvez porque esse amor paixão pela sua própria intensidade não tem condições de sobreviver. Isso acho que está expresso com felicidade no dístico final do meu soneto "Fidelidade": "que não seja imortal posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure".
E assim Vinícius falava sobre o amor:
Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente

Mais do que parceiros Vinicius colecionou amigos e admiradores de sua obra. Companheiros de boêmia, do cotidiano, de rimas e notas musicais, eles formaram a fina nata da Música Popular Brasileira, junto ao 'Poetinha'. Os principais deles foram:
TOM JOBIM
Em 1955, Vinicius montaria a peça Orfeu da Conceição, com música a cargo de um então jovem pianista: Tom Jobim. Surgia assim uma parceria que se estenderia por toda a vida profissional e pessoal. Uma série de intérpretes gravou composições inesquecíveis da dupla, como Canções do Amor Demais, Luciana, Estrada Branca, Chega de Saudade, Garota de Ipanema, dentre outras. Mais do que ninguém, Tom foi o grande amigo.
CARLINHOS LYRA
Os dois se conheceram em 1961, ano em que compuseram juntos Você e Eu e Coisa Mais Linda. Outras composições da dupla são Primeira Namorada, Nada como ter Amor e A Marcha da Quarta-feira de Cinzas e o glorioso Hino da UNE.
BADEN POWELL
A parceria com o violonista começou em 1962, ano em que foram compostas as belas Samba da Bênção, Tem Dó, Samba em Prelúdio, Consolação, Canto de Ossanha e Samba de Oxóssi. Valsa do Amor que não vem, interpretada por Elizeth Cardoso, conseguiu o segundo lugar do I Festival de Música Popular Brasileira, da TV Excelsior de São Paulo, em 1965.
CHICO BUARQUE
Com Chico a parceria começou a partir da amizade nutrida entre o historiador Sérgio Buarque de Holanda (pai de Chico) e o poetinha desde os tempos do Itamaraty. Chico, que largara o curso de arquitetura no 3º ano para se dedicar às suas composições, fez inúmeras parcerias com o poetinha ao fim dos anos 60, muitas das quais com sua irmã Miúcha na condição de intérprete. Chico e Vinícius fizeram entre várias lindas canções: A Tonga, Primavera e A Valsinha - uma troca de cartas entre Julinho de Adelaide , codinome de Chico, ora no exílio em decorrência da ditadura - e o poetinha.
TOQUINHO
Da intensa parceria iniciada em 1969 surgiu a clássica Tarde em Itapoã.O primeiro disco da dupla foi lançado em 1971, quando os dois passaram a se apresentar em numerosos shows no Brasil e no exterior. Ao todo, foram quase 120 músicas compostas pelos amigos.
Além deles, Vinicius fez parceria com Edu Lobo e Francis Hime.
“Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas. Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto." (Vinicius de Moraes)
Abaixo uma das carta trocadas entre Chico e Vinícius sobre a composição d' A VAlsinha.
Cartas trocadas há mais de trinta anos e parece que foi ontém. Lindo processo criativo entre Vinicius de Moraes e Chico Buarque que contam um pouco da história de uma das mais belas músicas da MPB, a gloriosa Valsinha.
DE VINÍCIUS DE MORAES PARA CHICO BUARQUE
Chiquérrimo,
Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três idéias que tive. Mandei-a em carta a você, mas Toquinho, com a cara mais séria do mundo, me disse que Sérgio [Buarque de Hollanda] morava em Buri, 11, e lá se foi a carta para Buri, 11.
Mas, como você me disse no telefone que não tinha recebido, estou mandando outra para ver se você concorda com as modificações feitas.
Claro que a letra é sua, e eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes, o cara de fora vê melhor essas coisas.
Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de “Valsa hippie”, porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha? O pessoal aqui, no princípio, estranhou um pouco, mas depois se amarrou na idéia. Escreva logo, dizendo o que você achou.
Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito mais quente do que comumente costumava olhar
E não falou mal da poesia como mania sua de falar
E nem deixou-a só num canto; pra seu grande espanto disse: vamos nos amar…
Aí ela se recordou do tempo em que saíam para namorar
E pôs seu vestido dourado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como a gente antiga costumava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a bailar…
E logo toda a vizinhança ao som daquela dança foi e despertou
E veio para a praça escura, e muita gente jura que se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz.
DE CHICO BUARQUE PARA VINÍCIUS DE MORAES
Caro poeta,
Recebi as duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto alto do show, junto com o “Apesar de você”. Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gesse, e se não gostar foda-se, ou fodo-me eu.
“Valsa hippie” é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de barra, com tudo que há de hippie por aí. “Valsa hippie” ligado à filosofia hippie como você a ligou, é um título perfeito. Mas hippie, para o grande público, já deixou de ser filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver. Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A sua solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que se segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippie”. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou “xingou” mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar.
“Convidou-a pra rodar” eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e a tesão da trepada final. “Pra seu grande espanto”, você tem razão, é melhor que “para seu espanto”. Só que eu esqueci que ia por itens.
Vamos lá:
Apesar do Orestes (vestido de dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. É gostoso de cantar vestido decotado. E para ficar dourado, o vestido fica com o acento tendendo para a primeira sílaba. Não chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é, aliás, o que mais agrada, em geral. E eu também gosto do decotado ligado ao “ousar” que ela não queria por causa do marido chato e quadrado. Escuta, ô poeta, não leva a mal a minha impertinência, mas você precisava estar aqui para ver como a turma gosta, e o jeito dela gostar dessa valsa, assim à primeira vista. É por isso que estou puxando a sardinha mais para o lado da minha letra, que é mais simplória, do que pelas suas modificações que, enriquecendo os versos, talvez dificultem um pouco a compreensão imediata. E essa valsinha tem um apelo popular que nós não suspeitávamos.
Ainda baseado no argumento acima, prefiro o “abraçar” ao “bailar”. Em suma, eu não mexeria na segunda estrofe.
A terceira é a que mais me preocupa. Você está certo quanto ao “o mundo” em vez de “a gente”. Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último versos onde você diz “e cheios de ternura e graça” em vez de “e foram-se cheios de graça”. Agora, estou pensando em retomar uma idéia anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça. Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer “Em estado de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar”. Só tem o probleminha da junção “em-estado”, o “em-e” numa sílaba só. Que é o mesmo problema do “começaram-a”. Mas você mesmo disse que o probleminha desaparece dependendo da maneira de se cantar. E eu tenho cantado “começaram a se abraçar” sem maiores danos. Enfim, veja aí o que você acha de tudo isso, desculpe a encheção de saco e responda urgente.
Há um outro problema: o pessoal do MPB-4 está querendo gravar essa valsa na marra. Eu disse que depende de sua autorização e eles estão aqui esperando.
Eu também gostaria de gravar, se o senhor me permitisse, por que deu bolo com o “Apesar de você”, tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro. É claro que não vendeu tanto quanto a “Tonga”, mas a “Banda” vendeu mais que o disco do Toquinho solando “Primavera”. Dê um abraço na Gesse, um beijo no Toquinho e peça à Silvana para mandar notícias sobre shows etc. Vou escrever a letra como me parece melhor. Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro buraco que você tiver à mão.
Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou- a pra rodar
Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz.















